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sábado, 12 de março de 2011

Professor da UEG lança livro sobre fim do marxismo

Professor da UEG lança livro sobre fim do marxismo






Nildo Viana, professor da Unidade Universitária de
Ciências Socioeconômicas e Humanas da UEG (Anápolis)

A Giz Editorial, de São Paulo, está lançando O Fim do Marxismo e Outros Ensaios, de Nildo Viana, professor da Unidade Universitária de Ciências Socioeconômicas e Humanas da UEG (Anápolis). Segundo o professor, o livro é um conjunto de ensaios que tem como tema comum o marxismo. O primeiro ensaio, que dá título à obra, é “O Fim do Marxismo”. Nele o autor aborda algumas das principais teses sobre a crise do marxismo. “Desde o início doséculo XX se fala em crise do marxismo, e tal discussão perdura até os dias
de hoje”, pondera.




O ensaio aborda criticamente as teses da crise do marxismo de Rosa Luxemburgo (1903), Karl Korsch (1931), Isaac Deutscher (1965), Agnes Heller (1980), André Gorz (1980), Ernesto Laclau (década de 1980), Perry Anderson (1984 e 1991). No livro as teses são expostas e refutadas. 



Na avaliação do professor Nildo Viana, as teses de Rosa Luxemburgo e Karl Korsch seriam as mais próximas da realidade. Ele explica que o marxismo, enquanto teoria revolucionária, naturalmente deveria ser uma concepção marginal na sociedade capitalista. O sucesso do marxismo no início do século (a emergência e força dos partidos social-democratas na Europa e do partido bolchevique) significou uma deformação do pensamento marxista, transformando-o em uma ideologia, em um pseudomarxismo. O verdadeiro marxismo teria ficado oculto e marginalizado, e em contradição e conflito com o pseudomarxismo. 



“Assim, o que está em crise realmente é o pseudomarxismo (socialdemocracia e bolchevismo), que, com as mudanças históricas recentes (crise do Estado de Bem-Estar Social e do Capitalismo de Estado da União Soviética), entra em colapso. Porém, o marxismo autêntico continua existindo e produzindo teorias e explicações da realidade contemporânea, mas, como sempre, de forma marginal”, ressalta o professor.

 A tese apresentada, de acordo com o autor, é a de que não há nenhuma crise do marxismo e sim uma aproximação do seu fim. O fim do marxismo significa, tal como colocava Marx a respeito da filosofia, a sua realização. A possibilidade de constituição de uma nova sociedade está posta, e sua tendência vem se fortalecendo, tornando cada vez mais próximo um processo de transformação social. Neste sentido, a teoria marxista tende a se realizar — o que significa o seu fim —, tornando-se parte integrante da cultura humana, sem distinções, numa nova sociedade, fundada em relações sociais igualitárias.



Ensaios — Os demais ensaios do livro abordam outros temas importantes para a compreensão do marxismo. “O Jovem Marx e o Marxismo” é um texto que polemiza com a tese do filósofo Louis Althusser — segundo a qual teria ocorrido uma ruptura no pensamento de Marx —, afirmando a inexistência dessa ruptura e fundamentando essa afirmação nos escritos do autor. O ensaio sobre o filósofo tcheco Karel Kosik reconstitui a visão deste autor em sua obra Dialética do Concreto e demonstra suas limitações, marcadas por uma visão equivocada de marxismo, pela imprecisão conceitual, pela idolatria da ciência e da filosofia, entre outros pontos. Já o último ensaio, sobre Mao Tsé-Tung, traz uma crítica ao caráter normativo do pensamento do líder do Partido Comunista Chinês e de sua concepção de dialética, uma mera réplica da estratégia do seu partido, que justifica e legitima as práticas partidárias, não tendo nada a ver com o marxismo e a dialética materialista, sendo mais uma ideologia da burocracia partidária, ou seja, um pseudomarxismo, segundo o professor.

 

O autor — Nildo Viana é professor da Universidade Estadual de Goiás e doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília. É autor de vários livros, entre os quais Escritos Metodológicos de Marx (Goiânia, Alternativa, 2007); Introdução à Sociologia (Belo Horizonte, Autêntica, 2006); Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos (Rio de Janeiro, Achiamé, 2005); A Dinâmica da Violência Juvenil (Rio de Janeiro, Booklink, 2004); Estado, Democracia e Cidadania (Rio de Janeiro, Achiamé, 2003); O Que São Partidos Políticos (Goiânia, Edições Germinal, 2003). Nildo Viana é colunista e colaborador da revista Sociologia, Ciência e Vida, da Editora Escala. Também é autor de diversos artigos publicados em revistas acadêmicas.

http://www.jornalopcao2.com.br/index.asp?secao=Reportagens&idjornal=257&idrep=2417

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Resenha do Livro “O Capitalismo na Era da Acumulação Integral”


Para Compreender o Capitalismo Contemporâneo
Resenha do Livro “O Capitalismo na Era da Acumulação Integral”*

Marcos Lopes**


A sociologia e as ciências humanas na contemporaneidade possuem um grave problema: a falta de referenciais teóricos abrangentes que forneçam uma base explicativa da realidade do capitalismo contemporâneo. Sem dúvida, existem muitas obras (sociológicas e de outras áreas) sobre a realidade contemporânea, a “modernidade”, e outros temas. Isso não deve ocultar a visão de que é necessário reconhecer uma limitação grave na grande maioria destas obras, seja por sua base teórico-metodológica, seja por suas deficiências analíticas próprias. Grande parte da produção sociológica sobre o mundo contemporâneo se fundamenta em teorias e métodos limitados, que, obviamente, irão promover uma limitação na explicação da realidade contemporânea. Muitos caem num factualismo ou empiricismo que compromete a percepção da realidade concreta, outros caem em especulações e abstrações que não colaboram no processo de compreensão da realidade contemporânea, sendo mais ficções do que realidade.

Isso, em parte, é derivado do mundo cultural que nos cerca, os modismos, as representações cotidianas e a ideologia dominante, acaba sendo um obstáculo para uma visão mais ampla da realidade. Por outro lado, a própria complexidade das relações sociais e seu caráter mutável, é outro obstáculo. Assim, para o indivíduo conseguir perceber as relações sociais em que vive e como elas se formaram, é algo extremamente difícil.

A obra recém lançada de Nildo Viana, O Capitalismo na Era da Acumulação Integral, é uma exceção. O autor oferece uma grande contribuição para se pensar o capitalismo contemporâneo. Para tanto, a obra conta com uma forte base teóricometodológica, já desenvolvida pelo autor em outras obras, o que é um diferencial em relação a vários outros livros sobre o mundo contemporâneo. O autor não cai no empiricismo em momento algum, e isso o permite mostrar as mudanças sociais e históricas, a continuidade e descontinuidade. Também não fica preso num processo de criação de categorias abstratas que pouco acrescentam numa análise crítica e por isso contribui com o processo de revelar os problemas e questões sociais que hoje enfrentamos. Também não cede ao processo fácil e recorrente de ficar citando sempre os mesmos autores para explicar a realidade social contemporânea, num “eterno retorno do mesmo discurso”, onde a ousadia intelectual e criatividade ficam ausentes e aí vem os repetidores dos “grandes nomes” para dizer sempre o mesmo, tal como os grandes nomes fazem.

A obra de Viana não se limita a repetir o jargão e o discurso corrente de uma determinada ala acadêmica que se diz marxista e que estão sempre dispostos a cultuar autores da moda e salvadores da pátria da esquerda tradicional ou supostas alternativas e, assim, não se encontrará em tal obra a referência a autores como Kurz, Mészáros e Chesnais. Também não se rende a uma necessidade de subordinação aos modismos e autores consagrados pelos grandes nomes da sociologia contemporânea (Giddens, Bauman), tanto pelo fato do autor não ser apenas sociólogo, sendo também filósofo, quanto pelo fato de principalmente não se restringir a um mundo especializado e unilateral. Para aqueles que conhecem suas outras obras, sabem que o autor não só questiona a especialização do trabalho intelectual como adentra em inúmeras temáticas e disciplinas, o que o torna uma pessoa mais do que indicada para realizar uma abordagem da totalidade das relações sociais sob o capitalismo contemporâneo. É por isso que o autor consegue, dialeticamente, trabalhar a categoria de totalidade e entender o capitalismo como tal – indo além da mera análise chamada “econômica”, mas mostrando as relações recíprocas entre as mutações do processo de produção e as políticas estatais, as relações internacionais, as manifestações culturais.

O autor faz uma análise do capitalismo contemporâneo e realiza sua periodização, dando conta de explicar não somente o processo histórico do capitalismo, como suas mutações e características específicas em cada período. Através da noção de regime de acumulação, retomada e ressignificada a partir da escola da regulação e Benakouche, dotando o termo de caráter social e não economicista, incluindo o Estado, a organização do trabalho e as relações internacionais, apresenta o desenvolvimento histórico do capitalismo e focaliza o modo atual, o regime de acumulação integral, marcado pelo neoliberalismo, toyotismo, e neo-imperialismo (globalização, termo amplamente criticado em uma parte da obra). O autor, no primeiro capítulo, apresenta as suas bases teóricas ao discutir a teoria dos regimes de acumulação. Além de discutir algumas das várias propostas de periodização do capitalismo, mostrando seus limites, o autor esclarece o conceito de regime de acumulação e oferece sua periodização que aponta para o entendimento de que a história do capitalismo é marcada por uma “sucessão de regimes de acumulação”, tal como Marx já havia percebido que a história da humanidade é marcada por uma sucessão de modos de produção.

Na seqüência, o autor passa a tratar, o que é objeto de sua obra, do atual regime de acumulação. O regime de acumulação integral tem como elementos básicos e definidores a organização do trabalho comandada pelo toyotismo, a formação estatal de caráter neoliberal e por novas relações internacionais que instituem um neoimperialismo. Ele dedica a cada um destes elementos componentes do regime de acumulação integral um texto específico.

O texto sobre neoliberalismo é excepcional, inclusive com críticas precisas e corretas a Perry Anderson e outros intérpretes. O autor mostra que o neoliberalismo não é mera aplicação de uma doutrina (surgida na década de 1940) e sim produto de necessidades do capital e são estas que constrangem a retomada de ideologias produzidas em outras épocas, bem como a criação de novas e misturas ideológicas que a realidade concreta da organização estatal produz. Assim, dizer que determinado governo não é neoliberal porque não se encaixa na ideologia de um determinado autor é um equívoco que a partir destas reflexões perde razão de ser.

O texto sobre toyotismo é revelador e crítico. Além de discutir a gênese do toyotismo e recuperar o significado do processo de trabalho no capitalismo, que é processo de valorização, e questionar o “léxico dominante” (o que fará em vários outros momentos do livro no que se refere a várias palavras e supostos conceitos da moda), especialmente a falácia da suposta “flexibilidade” (um eufemismo que é aplicado a tudo e não explica nada, escondendo o caráter nada flexível das mudanças do mundo do trabalho). O objetivo do toyotismo e tudo que se relaciona com a chamada “reestruturação produtiva” é aumentar a extração de mais-valor absoluto e relativo, que, para se realizar, precisa do Estado Neoliberal, seu complemento necessário.

O texto sobre neo-imperialismo é esclarecedor, inclusive mostrando as especificidades dos Estados Unidos. Mostra a necessidade contemporânea do capitalismo de aumentar o processo de exploração a nível nacional e mundial, tanto nos países de capitalismo subordinado quando nos países imperialistas e a ampliação da exploração internacional.

O autor não se limita a analisar a base real das mutações contemporâneas, ou seja, a mudança nas relações de trabalho, políticas estatais e relações internacionais, e, na segunda parte da obra faz uma análise crítica e extremamente útil de determinadas ideologias contemporâneas. Além da crítica de Toni Negri e da ideologia da crise da sociedade do trabalho, há dois textos que se destacam: a crítica ao pós-modernismo e à ideologia da globalização. A análise do pós-modernismo, além de mostrar que é uma “armadilha ideológica” e que não se deve tomar o discurso pelo o que ele diz ser, retoma as origens históricas de um conjunto de ideologias que emergem a partir do novo regime de acumulação e servindo aos interesses de reprodução deste. Ao analisar a gênese do que o autor denomina “pós-vanguardismo”, a manifestação da ideologia “pós-moderna” na esfera artística, e do “pós-estruturalismo”, a sua expressão na esfera científica, coloca em evidência sua razão de ser e sua ligação indissolúvel com as mudanças sociais e históricas do capitalismo. A crítica da ideologia da globalização, que retoma os questionamentos de Bourdieu, Bauman e Forrester, indo além delas, coloca em evidência mais uma produção ideológica que cria fantasmagorias ideológicas para obscurecer uma real compreensão do mundo contemporâneo. Neste ponto, para quem não leu o livro, se daria por contente e entenderia que o autor faz uma introdução teórica que abre espaço para analisar o modo de produção capitalista em sua atualidade e sua íntima relação com a formação estatal e exploração internacional e também o mundo das ideologias, fornecendo um quadro geral da sociedade contemporânea. Porém, o autor não para por aí. Se desde o início as conseqüências sociais (aumento da pobreza, desemprego, entre outras) estão presentes,
a última parte do livro focaliza as lutas sociais e as mutações que ocorrem neste contexto. Uma discussão crítica sobre a ideologia da exclusão social e a análise do processo de lumpemproletarização é realizada e seguida por uma análise das lutas sociais contemporâneas, lutas no México, Argentina, Europa, ação da classe dominante e das classes exploradas, indo até as lutas culturais, da auto-ajuda até o microrreformismo e retomada de autores e concepções marginais (anarquismo, conselhismo, situacionismo) e pela necessidade capitalista de reprodução ampliada do mercado consumidor. O exemplo dos animais domésticos transformados em mercadoria que constrangem os indivíduos a comprarem outras mercadorias (ração, remédios, etc.) e o caso do computador que realiza o mesmo constrangimento, é útil para muitas pessoas refletirem sobre as ideologias da liberdade absoluta do indivíduo.

Assim, as lutas sociais no México, o chamado “movimento antiglobalização”, a rebelião na Argentina, são colocados no interior de um quadro teórico e analítico que supera a mera descrição e mostra as bases e tendências das lutas sociais. Sem um grande aprofundamento nestes casos específicos, já que não era o objetivo do trabalho uma análise pormenorizada e profunda de cada caso específico e sim a inserção destas lutas num movimento tendencial, revela o que gera tais lutas e como elas reconfiguram as manifestações culturais, ao mesmo tempo que são atingidas por estas. A ação estatal e o processo de violência e aumento da repressão, por um lado, e novas políticas estatais marcadas por um microrreformismo, são apresentados não como produto do acaso e sim como resultado de lutas sociais no interior de um novo regime de acumulação. A conclusão final do livro é surpreendente: enquanto muitos acham (e declaram) que o capitalismo está em crise, que as lutas na Argentina e México são os grandes exemplos a serem seguidos, que as revoltas na França ou o movimento antiglobalização é um novo movimento que veio para ficar, o autor afirma que, no fundo, não há nenhuma crise do capitalismo atualmente e que este continua se reproduzindo normalmente, assim como as lutas sociais contemporâneas (revoltas na Europa, rebeliões, etc.) são apenas as novas lutas cotidianas e ainda limitadas que tendem a se radicalizar com o continuidade do regime de acumulação integral, que tal como os outros regimes de acumulação anterior, não é eterno e também entrará em crise e que, todas as vezes que um regime de acumulação entra em crise, abre-se a possibilidade de sua transformação em crise do capitalismo, e, assim, torna-se possível a libertação humana e a autogestão social.

Enfim, é uma obra que aborda um conjunto de questões e numa concepção totalizante. A categoria de totalidade, defendida e explicitada pelo autor em outras obras, se corporifica neste livro e oferece uma rara contribuição para se repensar o mundo contemporâneo. E acaba se revelando uma obra como poucas produzidas na sociologia brasileira, tornando-se leitura fundamental para todos os cientistas sociais e pessoas preocupados com o destino da humanidade.

* VIANA, Nildo. O Capitalismo na era da acumulação integral. São Paulo, Idéias e Letras, 2009.
* * Doutor em Sociologia Política/UFSC. Professor do Instituto Federal de Goiás/IFG.

Revista Sociologia em Rede, vol. 1, num. 1, Jan./Jul. 2010.


Resenha do livro "Universo psíquico e reprodução do capital - Ensaios freudomarxistas"


Universo Psíquico e Reprodução do Capital: 
Ensaios freudo-marxistas

Renato Dias de Souza 1



No livro “Universo Psíquico e Reprodução do Capital: Ensaios Freudo-Marxistas”2, publicado pela editora Escuta, 2008, de autoria de Nildo Viana, foram reunidos quatro ensaios. Nestes destacamos a preocupação do autor em historicizar os diversos temas e sistematizar conhecimento sob as lentes da “crítica impiedosa do existente”, como propunha Marx. O professor da Universidade Estadual de Goiás realizou uma síntese entre marxismo e psicanálise. Não constituiu um conjunto homogêneo a partir de partes distintas ou justapondo essas duas perspectivas de explicação do universo psíquico e da
sociedade.

Ao contrário, repensou a psicanálise com as categorias do marxismo. Reconhecendo os avanços e limites desta na compreensão do processo de reprodução do capital, a partir da análise do universo psíquico. Utilizando o materialismo histórico-dialético, como método heurístico de perspectiva totalizante, foi possível que apresentasse críticas as idéias acerca do “princípio de realidade” e “princípio de prazer”, por exemplo. Pois, essas apresentam-se em muitas reflexões mediados pela dicotomia entre o interno (o inconsciente) e o externo (o consciente). Nos ensaios podemos verificar uma explicação totalizante das questões que se colocam acerca das relações sociais e o universo psíquico.

A perspectiva historicizante destes os situam na crítica a naturalização, com que alguns conceitos da psicanálise, são utilizados e tratam das relações sociais. Entre eles, as questões referentes ao “instinto de morte”, da psicanálise freudiana, e o conservadorismo que o associa a necessidade da repressão. Desse modo, Nildo Viana, não incorreu no esvaziamento da subjetividade das suas determinantes histórico-concretas. O universo psíquico, em especial a mentalidade dominante, é um dos elementos que possibilitam a reprodução do capital. Portanto é fundamental situarmos a constituição da psicanálise na história e explicarmos o universo psíquico na totalidade das relações sociais.

Afirma a necessidade de uma história crítica da psicanálise, que demonstre como o universo psíquico, constitui-se na sociedade moderna sob condições colocadas pelo processo de crescente mercantilização e burocratização das relações sociais. Oriundo da expansão e universalização do capitalismo intensificada após a Segunda Guerra Mundial. De modo que, as demais esferas da vida social, estejam condicionadas pelo modo de produção existente. O que nos possibilita explicarmos a simultaneidade entre o crescimento das “necessidades fabricadas” e os interesses da classe dominante.

No entanto, o autor, que é um crítico das concepções pseudomarxistas e seus mecanicismos, não oculta na sua análise, as lutas sociais que se opõem a exploração capitalista. A preocupação em apontar saídas onde tudo parece perdido, coincide com a crítica de Henri Lefebvre a Herbert Marcuse, que, também é questionado por Nildo Viana. Daí, a preocupação com que resgata as fantasias, sonhos e utopias como elementos que resistem à repressão e voltam ao consciente. Constituindo-se em manifestações de resistência à sociabilidade restritiva impostas pelo realismo político e o pragmatismo dos partidos e sindicatos, por exemplo.

A compreensão de que a consciência do indivíduo se constitui socialmente retoma a possibilidade de que o caráter teleológico dessa contribua na superação das condições dadas. Daí, podermos classificar as questões sobre o “instinto de morte” e o “Complexo de Édipo” como ficções freudianas. Pois estão circunscritas à naturalização do que é criado socialmente. Resultado de uma análise que faz a abjuração dos sentimentos, reconhecidos mas tornados obscuros na análise freudiana, em favor da paixão deste pelos instintos. Em resumo, a naturalização e o idealismo de análises que elaboram um modelo ideal e o tornam uma idéia fixa. Ao qual, a realidade, deverá se curvar.

Nildo Viana resgata a importância dos sentimentos e apresenta o amar como uma necessidade humana. Interessante observarmos que na sociedade em que vivemos, os desejos são reprimidos, mas as necessidades não deixam de existir. No livro “A Sagrada Família” de Marx e Engels, o amor também está associado ao humano, ao imediato, a experiência sensual, real, e, portanto, não metafísico. A emancipação humana passa por considerar os sentimentos ao invés da naturalização dos instintos. Não incorrendo, assim como alguns freudo-marxistas, como Erich Fromm, na proposição de saídas individualistas ou legitimação em determinada medida da repressão.

No entanto, reconhece a insuficiência com que o marxismo se preocupou com o universo mental dos indivíduos e a contribuição conseqüente de freudo-marxistas como Reich. Que situa-se na crítica a naturalização da repressão e não incorre na racionalização desta na sociedade, como faz Marcuse, que, ao afastar-se da teoria da revolução do marxismo, preocupa-se em constituir uma filosofia da psicanálise, com uma análise abstrata que desconsidera a existência de classes sociais antagônicas.

No último ensaio, “Marcuse e a crítica ao neofreudismo”, o autor reafirma a necessidade de compreendermos os temas colocados pela psicanálise não em sentenças abstratas ou empiricistas, mas em suas múltiplas determinações. De modo que a natureza humana não seja vista como imutável.

O livro é uma grande contribuição na compreensão da dinâmica da sociedade capitalista. Retomando a importância da descoberta do inconsciente realizada por Freud e associando-a as afirmações de Marx de como os homens e mulheres agem a partir das condições objetivas dadas. Oxalá possamos ler outros trabalhos que objetivem afastar a névoa do complexo processo de constituição do universo psíquico. Desvendando os conflitos sociais encobertos pelas explicações naturalizantes. Tendo como condição indispensável, a constituição de uma sociedade, onde os seres humanos realizem-se nas suas potencialidades.

1 - Mestre em História/UFG; Professor da UEG – Universidade Estadual de Goiás.
2 VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo, Escuta, 2008.


Nova resenha do livro "Introdução à sociologia"



RESENHA
VIANA, Nildo. Introdução à Sociologia. Belo Horizonte: Autêntica, 2006
 

Uma introdução à sociologia em grande estilo

 
A obra de Nildo Viana afirma-se a cada livro publicado como uma das mais instigantes do marxismo brasileiro e o leitor terá a prova desse fato inconteste com a leitura deste livro, esta excelente Introdução à Sociologia, recentemente publicada pela Editora Autêntica (Belo Horizonte), na Série Ciências Humanas, coordenada pelo autor. Nildo Viana que é professor de Sociologia na Universidade Estadual de Goiás (UEG) é responsável por um já expressivo conjunto de estudos marxistas com temas e problemáticas interdisciplinares em livros como A Dinâmica da Violência Juvenil (2004), Estado, Democracia e Cidadania (2004), Escritos Metodológicos de Marx (2001), entre outros títulos e dezenas de capítulos de livros e artigos em periódicos nacionais e internacionais. Nildo Viana compõe sua trajetória política e intelectual nos quadros do marxismo brasileiro a partir de sua prática na universidade, ressalvando-se de modo enfático que a sua perspectiva rompe radicalmente com os cânones que sempre fundamentaram a cultura marxista brasileira: o marxismo pecebista, o marxismo fenomenologista acadêmico e o marxismo de tintas politicistas de matriz gramsciana. Seu projeto marxista insere-se de modo intransigente e radical na cultura dissidente anticapitalista, naquilo que a ortodoxia leninista-stalinista sempre convencionou chamar pejorativamente de “esquerdismo”. Exceto pela obra de Maurício Tragtenberg não há no Brasil uma tradição consolidada de heterodoxias marxistas pautada fundamentalmente por posições antileninistas, propositora, portanto, da radicalidade política anticapitalista de bases autogestionárias.
O mercado editorial brasileiro tem inúmeros exemplos de estudos introdutórios à Sociologia. O que distingue o trabalho de Nildo Viana desses outros trabalhos é a sua perspectiva analítica originalíssima: uma perspectiva marxista radicalmente ortodoxa com a matriz marxiana, com a obra original de Karl Marx. Esse aspecto está admiravelmente exposto no paradigmático capítulo cinco – “Temas fundamentais da Sociologia” – onde o autor apresenta reflexão sobre quatro questões fundamentais à análise sociológica: a relação indivíduo – sociedade (percebida através do conceito de socialização), o problema da divisão da divisão social do trabalho (vista através do conceito de classes sociais), a questão da cultura e da ideologia e, por fim, a questão da mudança social.
Para o autor o processo de socialização do indivíduo na sociedade capitalista está marcado pela competição, mercantilização e burocratização. Tais marcas estruturais são oriundas do processo histórico da divisão social do trabalho intrínseco às determinações fundamentais do modo de produção capitalista, determinações essas, projetadas nas práticas interrelacionais das classes sociais.
Nildo Viana afirma que no modo de produção capitalista existem fundamentalmente duas classes sociais – a burguesia e o proletariado. A relação destas classes determina estruturalmente na sociedade capitalista a existência de outras classes sociais que têm sua existência determinada relacionalmente a formas secundárias de exploração, formas realizadas na ação institucional do Estado, do capital comercial e do capital bancário. Nessas configurações institucionais da sociedade capitalista estão reproduzidas formas de exploração outras que reproduzem de modo ampliado a relação de exploração central do modo de produção capitalista: a expropriação da mais-valia no ato da exploração burguesa da força de trabalho proletária. Exemplos dessa prática societal são o campesinato e a burocracia. O campesinato que não reproduz mais-valia é explorado pela classe dominante e a burocracia como classe aliada da classe dominante tendo no Estado o seu aparelho de ação fundamental. Como corolário desse modelo, o fato de que a ideologia com suas bases reais (nas classes sociais) teria de ser entendida de modo determinante como uma forma de pensamento sistemático que, no entanto, reproduz a deformação da realidade social por causa de sua origem determinada pela divisão social do trabalho. A ideologia como pensamento sistemático nasce das práticas do trabalho intelectual vinculado historicamente no capitalismo, enquanto modo de produção, às classes “auxiliares” ligadas à classe dominante (a burguesia), caso, por exemplo, dos intelectuais nas burocracias estatais.
A cultura na sociedade capitalista seria a expressão da consciência concreta de determinada classe social, a cultura, ao contrário da ideologia, é parte constituidora da totalidade histórica porque é a consciência própria de cada classe, que é sempre afirmada relacionalmente no confronto com as outras classes. Conforme o autor, a cultura seria então parte constituinte das práticas de classe, logo, elemento estrutural da realidade histórica. A ideologia seria então forma específica de pensamento complexo, uma falsa consciência sistematizada que pode “assumir a forma de Filosofia, Teologia, Ciência, etc.” (p. 127).
Do conjunto dessas questões aquela referente à mudança social fica de imediato subentendida como um processo social, nunca como uma lei natural ou qualquer outro teleologismo histórico. A mudança social seria então imanente aos conflitos sociais originados pelas práticas interrelacionais das classes sociais.
No livro, para chegar a este quadro analítico radicalmente centrado na perspectiva marxiana, o autor, nos quatro primeiros capítulos, desenvolve extensa e detalhada análise dos significados próprios do que é presentemente a Sociologia como ciência acadêmica na sua condição histórica de ciência intrinsecamente vinculada à afirmação da sociedade capitalista, considerando-se, principalmente, o quadro de suas referências clássicas em Max Weber e Emile Durkheim que procuraram afirmar a Sociologia no seu estatuto de ciência. Mesmo sendo considerado uma referência clássica fundacional, o projeto teórico de Karl Marx, ao contrário, jamais se tentou propor, afirma o autor, com qualquer premissa de cientificidade sociológica para a realidade capitalista.
O leitor obtém desta extraordinária introdução uma extensa e detalhada apresentação do desenvolvimento institucional da Sociologia ao longo do século 20, assim como o desenvolvimento institucional imanente à crescente complexificação das práticas capitalistas, com o autor, privilegiando nessa exposição, as marcas nacionais da cultura sociológica contemporânea, destacando-se com esse propósito, os percursos institucionais da sociologia alemã, francesa, norte-americana e a do “resto do mundo”, incluindo-se aí, a sociologia brasileira. Na sociologia alemã, o autor comenta de modo sucinto, mas objetivo, os percursos clássicos de autores-instituições como Max Weber, Ferdinand Tönnies, Georges Simmel, Karl Mannheim, Norbert Elias, Robert Michels, a Escola de Frankfurt, e ainda, os estudos sobre a indústria cultural elaborados por Dietr Prokop. Na sociologia francesa apresenta-se a escola durkheimiana (Marcel Mauss, François Simiand, Paul Fauconnet, entre outros) e as escolas rivais ao modelo durkheimiano centradas em nomes como os de Frédéric Le Play e o de René Worms em conjunto com Gabriel Tarde. Da experiência francesa apresentam-se ainda as trajetórias marxistas de Henri Lefebvre e Lucien Goldmann e a escola “sócio-objetivista” de Pierre Bourdieu e seus colaboradores como Passeron, Chaboredon, Boltanski e Wacquant, grupo que Bourdieu reuniu em torno da revista Atas de Pesquisa em Ciências Sociais. No caso norte-americano, os destaques são dados a Tornstein Veblen, ao funcionalismo de Talcott Parsons e Robert Merton, como também as críticas a esse modelo elaboradas por Wright Mills; considera-se ainda, a sociologia industrial de Elton Mayo, o empiricismo da Escola de Chicago em nomes como o do urbanista Louis Wirth e o interacionismo simbólico de G. H. Mead. No quadro amplo da sociologia do “resto do mundo”, o autor ressalva com muita razão, na sociologia britânica, apesar de ser um nome de projeção internacional, a “sociologia sem grande importância” de Anthony Giddens.
Enfim, desse amplo quadro objetivo, o que se destaca é que, na sua condição de livro introdutório, mas portador de uma perspectiva teórico-política marxista apresenta-se como peça profundamente inovadora aos estudos sociológicos universitários, trata-se, portanto de um livro de divulgação fundamental a qualquer bibliografia nos cursos de ciências sociais.
Da década de 1980 aos dias atuais, o marxismo brasileiro sofreu a marca indelével do abandono, da abjuração teórica, o marxismo tem sido sistematicamente rejeitado como modelo explicativo e como perspectiva política. Com as práticas acadêmicas colossalmente reacionárias que pululam no esteio universitário nestas últimas décadas, os vértices heurísticos do marxismo foram sistematicamente derrotados pelas práticas dos rigores formais de investigação que os gestores da cultura acadêmica impõem aos seus próprios campos de atuação numa escalada fratricida de lutas e locupletações entre camarilhas universitárias que absolutamente nada têm a dizer à realidade histórica da exploração capitalista que lhes faculta – na expropriação da mais valia – a sua miserável existência nos pálidos contracheques mensais. Entretanto, nessa mesma universidade, mas com outras práticas acadêmicas aos poucos renasce o marxismo como perspectiva proletária, como perspectiva de estudantes proletários que não podem mais compactuar com a simples perspectiva de um dia tornarem-se gestores intermediários do capital transnacionalizado, dessas práticas de novo tipo nascidas nas frestas da universidade tecnocrática entre alguns professores e alunos é que aos poucos se vão delineando relações sociais fecundamente anticapitalistas e é dentro de tais práticas que o livro de Nildo Viana se justifica historicamente. Com os trabalhos de Nildo Viana, e em especial com este estudo introdutório a uma das principais balizas científicas do conhecimento da sociedade capitalista, desenham-se as possibilidades concretas de na tradição do marxismo brasileiro afirmar-se como definitivo o diálogo com a obra marxiana e apontarem-se assim as possibilidades de outras práticas intelectuais para o combate que pouco a pouco se vai instaurando na universidade brasileira contra os racionalismos positivistas tecnocráticos e/ou contra os irracionalismos culturalistas.